D. Fernando Gomes dos Santos

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 DESCENDÊNCIA DE FERNANDO GOMES DOS SANTOS

01.01.04.03.07
03.07.00.00.00 – Fernando Gomes dos Santos (Arcebispo de

FERNANDO GOMES DOS SANTOS:

UMA HOMENAGEM AO MAIS ILUSTRE DOS PATOENSES 

José Ozildo dos Santos

 Figura da maior expressão e destaque no clero brasileiro, dom Fernando Gomes dos Santos foi uma liderança incontestável e incontestada. De tradicional família católica, nasceu no dia 4 de abril  de 1910 numa segunda-feira – na cidade de Patos, Estado da Paraíba. Foram seus pais Francisco Gomes dos Santos e Veneranda Gomes Lustosa. Aos dez dias daquele mês, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, recebeu o sacramento do batismo, oficiado pelo cônego Joaquim Alves Machado, vigário local, de cujas mãos, no mesmo local, aos 24 de maio de 1917, recebeu a sua primeira   comunhão.

Em Patos, com seu próprio genitor, aprendeu as primeiras letras, matriculando-se em seguida na escola do professor Alfredo Lustosa Cabral. Aos oito anos de idade, passou a auxiliar o padre José      Neves  de Sá em suas celebrações. E, vocacionado para o sacerdócio, ingressou no Seminário  Arquidiocesano da Paraíba, a 9 de fevereiro de 1921. Ali, concluiu o primário e perfez os cursos  de humanidades e de Filosofia, iniciando o curso teológico, que foi concluído no Colégio Pio-Americano, em Roma, licenciando-se em dogmática, pela Universidade Gregoriana.

Na ‘cidade eterna’, teve como colega de estudos o jovem Walfredo Dantas Gurgel, futuro monsenhor e governador do vizinho Estado do Rio Grande do Norte. Sua ordenação sacerdotal               ocorreu numa terça-feira,dia1º de novembro de 1932, em solenidade realizada na Capela do                Pontifício Colégio Pio-Americano, recebendo ordem sagrada do presbiterato das mãos do cardeal                          Marchetti Selvaggiani. No dia seguinte, celebrou sua primeira missa no túmulo dos Apóstolos Pedro                   e Paulo.

Volvendo ao Brasil, o padre Fernando Gomes, que tornou-se “soldado de uma causa pela vida  toda”, “dispôs a levar para a imensa arena os grandes recursos que lhe dava sua vocação e uma         educação que sempre se completaram numa interação perfeita”. E, integrando-se ao clero                   paraibano, foi nomeado diretor do Colégio Diocesano ‘Padre Rolim’, em Cajazeiras, a cuja Diocese     pertencia. À frente daquele educandário, desenvolveu uma gestão administrativa digna de registro.         Graças aos seus esforços e continua dedicação, conseguiu equipara-lo ao Colégio Pedro II, do Rio                 de Janeiro.

Durante os quatro anos em que permaneceu em Cajazeiras, o padre Fernando Gomes não se  limitou apenas ao magistério: dirigiu o semanário “O Rio do Peixe” (editado pela Diocese), organizou a    Paróquia local (da qual foi vigário durante o ano de 1936) e difundiu o ensino do catecismo.

Sacerdote virtuoso, aos 17 de dezembro de 1936, foi nomeado vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Guia, sediada em sua terra natal, empossando-se em suas novas  funções no dia 1º do mês seguinte, em  substituição ao padre Manoel Otaviano de Moura Lima. Para ele, a referida nomeação representou a realização de um sonho e sua consagração como servo de Deus.

Seu vicariato – que durou seis anos – não foi fácil. Enfrentou as mais diversas dificuldades.

Nesse período, o sertão paraibano foi assolado por uma longa estiagem e os transtornos sociais       resultantes, foram agravados pelos reflexos da Segunda Grande Guerra. Mas, graça aos seus                esforços contínuos conseguiu realizar uma ação pastoral das mais produtivas para a cidade de                  Patos, tendo se dedicado “ao paroquiato de sua terra natal com o vigor da juventude e o ardo de                quem se sente plenamente realizado”.

Desde o início de seu vicariato, o padre Fernando Gomes entendeu que sua paróquia        necessitava de uma Igreja Matriz mais ampla, que pudesse acomodar melhor seus fiéis e que               estivesse à altura do progresso da cidade de Patos. Assim, ouviu seus paroquianos e com o total                apoio da comunidade católica, iniciou os trabalhos de reconstrução da velha Matriz, nos moldes           rigorosos da moderna arquitetura sacra, cuja solenidade de benção da primeira pedra, ocorreu no         domingo, dia 2 de julho de 1940 e contou com a participação de dom João da Mata do Amaral, bispo              de Cajazeiras, além de várias outras autoridades civis e religiosas.

Os referidos trabalhos somente cessaram quando a obra estava completamente concluída. Assim, num curto período de dois anos, o jovem sacerdote entregou à cidade de Patos sua nova                Igreja Matriz, fato que demonstrou a força de sua operosidade. A referida Igreja – cujo projeto foi         elaborado pelo arquiteto pernambucano Carlos Fest – por sua majestosidade, passou a ser um dos             mais belos monumentos da cidade e foi inaugurada durante a festa de setembro de 1942. Nela,         sobreleva-se um magnífico campanário, coroado de originalidade e beleza.

Em Patos, o padre Fernando esteve presente em todos os setores da atividade humana. Dele é a letra do ‘Hino de Louvor a Nossa Senhora da Guia’, entoado com fervor, durante as festas de setembro, pelo povo patoense.

Sacerdote virtuoso adquiriu e remodelou um imóvel, no centro da cidade, que passou a servir como ‘Casa Paroquial’. Para ele, “o braço direito, dado por Deus à mente e ao coração do pároco”,            era a ‘Ação Católica’. Assim, organizou-a e num amplo prédio, adquirido por compra, instalando-a em solenidade – que contou com a participação de dom João da Mata Amaral – realizada a 17 de           dezembro de 1939, data que se transformou num “acontecimento de maior projeção na história          católica da Paróquia de N. S. da Guia”.

Ainda em finais de 1939, iniciou em sua paróquia uma campanha visando despertar a classe trabalhadora para a criação do ‘Círculo Operário de Patos’. Sua iniciativa foi bem           recebida pela  categoria e tornou-se realidade a 25 de fevereiro de 1940, quando “reunindo no salão da Ação                                   Católica um elevado número de operários e perante uma grande assistência”, declarou instalado                                 provisoriamente o  referido Círculo.

Em Patos, o padre Fernando desenvolveu uma intensa atividade social. Fundou a ‘Casa dos       Pobres’ – instalada num amplo galpão – destinada a abrigar e alimentar os flagelados, que                  convergiram para a capital das Espinharas, durante a seca de 1941-1942. Mais tarde, auxiliado pela                     ‘Conferência Vicentina’, ‘Associações Paroquiais’ e ‘Religiosas Filhas do Amor Divino’, realizou uma                                                ampla reforma naquela ‘Casa’, transformando-a no ‘Dispensário dos Pobres’, dotado de aposentos                                          arejados, cozinha, enfermaria e um modesto mobiliário, destinando-o a abrigar os pedintes que havia                                                               na cidade.

Homem humilde, o padre Fernando Gomes era sempre encontrado naquele dispensário, no          meio dos pobres, confortando-os com sua presença como ministro e servo de Deus. Por essas               atitudes, tornou-se popular e querido.

Sempre preocupado com a educação, instalou na cidade de Patos dois novos educandários: o ‘Colégio Cristo Rei’ e o ‘Ginásio Diocesano’, garantindo o desenvolvimento cultural da juventude              patoense e de municípios circunvizinhos, prestando “com o brilho de sua inteligência uma                                colaboração sincera, leal e eficiente, sem olhar interesses subalternos”.

Seu nome está diretamente ligado à história do ‘Colégio Cristo Rei’, que iniciou suas atividades       no dia 4 de março de 1938. Nesse estabelecimento de ensino, desde sua fundação até finais de                        1942,o padre Fernando lecionou Língua Portuguesa e Religião. E, quando da construção do prédio                     daquele educandário, tomou para si a responsabilidade dos referidos trabalhos, “aos quais assistiu                               em todas as suas fases, até o aparecimento dos primeiros frutos colhidos em dezembro de 1942,                                                         com a primeira turma de professoras, que num gesto unânime de simpatia e gratidão o aclamou                                                                               paraninfo da cerimônia de colação de grau”.

O padre Fernando Gomes dos Santos tanto fez que conquistou a estima total de seus      paroquianos. Sua magnífica ação pastoral contribuiu para sua distinção com o canonicato, ocorrida                                       no dia 18 de junho de 1941. No ano seguinte, aos 18 de janeiro, foi agraciado com o título de                                                   monsenhor e por fim, em 12 de janeiro de 1943 – aos 33 anos de idade incompletos – ascendeu ao                                                                  episcopado, sendo nomeado bispo titular da Diocese de Penedo-AL, em substituição a dom Jonas de                                                                               Araújo Batinga, que falecera no exercício de sua ação episcopal.

Sua elevação ao episcopado representou um prêmio às suas excelsas virtudes. Na época,         Teotônio Rodrigues assim definiu a passagem de dom Fernando pela Paróquia de Nossa Senhora             da Guia: “suas idéias, sua maneira de viver, sua superioridade moral, sua capacidade de                  organização e de trabalho, sua simpatia pelos pobres, sua profunda compreensão do dever                                                              sacerdotal, sua sociabilidade cativante, tudo isto concorreu para o grande êxito de sua missão entre       nós“.

A sagração episcopal de dom Fernando Gomes dos Santos, ocorreu na Igreja Matriz da cidade de Patos, a 4 de abril de 1943 – dia de seu natalício – tendo como sagrante dom Moisés Coelho,                           Arcebispo da Paraíba e, consagrantes, dom José de Medeiros Delgado e dom João da Mata do                               Amaral, bispos das dioceses de Caicó (RN) e Cajazeiras (PB), respectivamente.

A referida solenidade converteu-se num grande cerimonial. Na tarde daquele dia, a ‘Ação     Católica’, o ‘Colégio Cristo Rei’ e ‘Ginásio Diocesano’, associados a várias outras entidades              religiosas da cidade, prestaram significativas homenagens ao ilustre prelado, que recebeu um                                            simbólico presente da Paróquia de Nossa Senhora da Guia, da qual, foi seu maior benfeitor.                                                                       Encerrando as solenidades, às 19:00 horas, celebrou-se um ‘Te Deum’, na Igreja Matriz de Nossa                                                                                       Senhora Guia, cujo sermão ficou a cargo de dom Mário de Miranda Vilas Boas, bispo de Garanhuns,                                                                                    considerando um dos maiores oradores sacros daquela época.

Em Patos, dom Fernando fundou e organizou a ‘Juventude Estudantina Católica’ e quando foi   escolhido bispo de Penedo, acumulava suas funções sacerdotais com o cargo de Diretor da ‘Pia                             União das Filhas de Maria do Educandário’. Ao tomar posse naquela Diocese, era, pois, o mais                jovem prelado do Brasil. Ali, a semelhança de Patos, destacou-se por “seu infatigável labor e pela                                                     facilidade de atrair amigos e crentes fervorosos com a simpatia”, demonstrando ser um “sacerdote                                                                 virtuoso e dedicado à causa da Igreja”.

Dinâmico, por onde passou, deixou a marca de suas realizações. Ampliou o clero sergipano,             visitou todas as paróquias sob sua jurisdição e promoveu uma ação episcopal, voltada para as                     questões sociais, enfrentadas por seus diocesanos. Por sua iniciativa foi criado o ‘Colégio Diocesano                        de Penedo’, oficialmente instalado aos 12 de março de 1944. Nesse ano, publicou sua ‘Carta                                                     pastoral: vocação sacerdotal’, em Salvador-BA, através da gráfica ‘Mensageiro da Fé’.

A permanência de Dom Fernando em Penedo prolongou-se até 1949, quando foi nomeado titular         da Diocese de Aracajú, em substituição a dom José Tomás Gomes da Silva, falecido a 31 de outubro               do ano anterior. Em Aracajú, sua ação episcopal por demais significativa. Verdadeiro “símbolo de                    vontade e de força”, iluminado por Deus, cuidou do rebanho católico alagoano como um bom pai                                   cuida de um filho. Naquela capital, seu nome é lembrado, designando uma escola e uma das                                         principais vias públicas.

Criada a Arquidiocese de Goiânia, foi nomeado seu primeiro arcebispo, por Bula assinada pelo       Santo Papa Pio XII, empossando-se em suas novas funções no dia 16 de junho de 1957, logo após a instalação daquele núcleo arquidiocesano, em solenidade presidida por dom Armando Lombardi, Núncio Apostólico no Brasil, e, que contou com a presença de vários prelados, de todo o presbitério goiano e de representações de todas as paróquias daquela Arquidiocese.

Consigo, levou alguns sacerdotes, que se tornaram seus auxiliares. Depois, com seu espírito de liderança, passou a despertar a união do clero goiano, realizando, mensalmente, reuniões com seus presbíteros. Possuidor de uma visão ampla, cedo, dom Fernando viu que “a Arquidiocese tinha leigos        em muitas associações religiosas e movimentos cristão”. Assim, na esperança de obter bons frutos,             “deu-lhes apoio, procurando unir e coordenar o laicato na vida da comunidade eclesial” e “dinamizou                            a Ação Católica, como fonte promotora da presença da Igreja, dando incentivo à JUC (universitária),                                        à JEC (estudantil), JAC (agrária), JIC (dos meios independentes da classe média) e JOC, que hoje é                                                   a Pastoral Operária, nos meios dos trabalhadores”.

Iniciados os trabalhos de construção de Brasília, com sua visão ampla, dom Fernando cedo          verificou que se tratava de uma realidade. E, percebendo o extraordinário potencial do Centro-Oeste

brasileiro, ainda no mês de julho de 1957, criou duas paróquias na futura capital federal: a de São                                     João Bosco, no Núcleo Bandeirante, onde residiam os operários, e a de Santa Cruz, nos canteiros de                obras do Plano Piloto.

Ainda naquele mês, fundou a ‘Revista da Arquidiocese’, que adotando o lema ‘A verdade vos     libertará’, teve circulação interrupta até 1992. Hoje, a referida revista, reativada em junho de 1995,                   encontra-se numa segunda fase. Em sua apresentação, dom Fernando expôs as metas de sua ação                              pastoral, afirmando que “em meio às absorventes tarefas do clero, aos crescentes anseios do povo                                           católico, torna-se indispensável um laço de união, de conforto espiritual que estimule, que coordene                                                                     nossas atividades pela consolidação e difusão do Reino de Deus, na imensa vastidão territorial da Arquidiocese”.

Dinâmico, reativou também o antigo jornal ‘O Brasil Central’, que passou a ser editado pela Arquidiocese, em Goiânia e que durante muito tempo, teve circulação diária. No dia 1º de agosto de       1957, menos de dois meses após sua posse, realizou a primeira visita pastoral ao interior de sua                  extensa Arquidiocese, começando pelas paróquias de Piracanjuba, Caldas Novas, Corumbaíba e                Marzagão. E, verificando que o grande problema de sua Arquidiocese era a escassez de padres,                             reativou o ‘Seminário Santa Cruz’ e criou a ‘Obra de Vocações Sacerdotais’, em cada paróquia.

Ainda no primeiro ano de seu governo arquidiocesano, “querendo abrir a Igreja à comunidade,         criou um programa na Rádio Brasil Central”, sob o título ‘A Arquidiocese Informa’, diariamente levado                        ao ar, em horário pago. No entanto, o referido programa durou pouco. Por ter falado algo que não                     agradou ao ‘Grupo Coimbra Bueno’, proprietário da referida emissora, teve seu contrato rescindido.

Nessa época, surgiu uma pequena rádio à venda em Goiânia. Dom Fernando, com muitos          esforços conseguiu adquirir para Arquidiocese aquela emissora, que adotou a denominação ‘Rádio                  Difusora de Goiânia’ e foi repassada à administração dos Padres Paulinos, tornando-se a principal                             base para atuação do Movimento de Educação de Base, estimulando a alfabetização e o                                                sindicalismo, por parte dos trabalhadores rurais.

No campo educacional, sua primeira iniciativa foi reestruturar a ‘Sociedade de Educação e           Ensino’. Em finais de 1957, reuniu todos os bispos de sua Arquidiocese, oportunidade em que foi                          aprovada uma carta pastoral, determinando a criação da Universidade Católica de Goiânia.

No ano seguinte, dom Fernando organizou a ‘Sociedade Goiana de Cultura’, destinada a

a preparar juridicamente, criar e gerir a futura Universidade. Assim, entregou “todo o ensino de primeiro e segundo graus às entidades que já militavam nessas áreas”, passando a ocupar-se apenas do              ensino superior. E, em setembro de 1959, a Universidade Católica tornou-se realidade.

Por sua iniciativa, em 1958, a Assembleia Geral da CNBB, foi realizada em Goiânia, no ‘Colégio       Santa Clara’. Durante aquela Assembleia, surgiu a ideia de se transferir o episcopal nacional para a

Futura capital, algo que foi bastante criticado por alguns diocesanos. Mas, amplamente de fendido por        dom Fernando, com o apoio de dom Hélder Câmara. Ainda em finais daquele ano, iniciou a                                             construção do ‘Seminário Santa Cruz’, na sede de sua Arquidiocese.

Quando da inauguração do Palácio da Alvorada, na nova capital federal, em cerimônia realizada         no dia 30 de junho de 1958, Dom Fernando celebrou uma grande missa campal, em Brasília. Na oportunidade, “pronunciou um sermão gratulatório, assinalando que aquele dia 30 era de excepcional importância para o futuro do país”, afirmando que “a inauguração das primeiras obras de Brasília”,       marcava “o início de uma nova fase da História, nessa marcha árdua e dificílima para o interior”.              Pois, com a construção de Brasília, o Brasil deixava de completar o mar, “por onde vieram as          caravelas do descobrimento e do progresso, para se voltar para si mesmo, como a despertar de um     grande sonho”.

Em Goiânia, dom Fernando organizou o Secretariado da Pastoral Arquidiocesana (1968), que se converteu numa espécie de centro de irradiação e convergência da ação pastora. Com sua ação   consciente, revitalizou as paróquias de sua Arquidiocese e criou o núcleo das Regiões Pastorais, elaborando o primeiro Plano da Pastoral, na Assembleia Arquidiocesana, reunida em Goiânia, no ano de 1977.

Antes, porém, em 1975, apoiou a criação da CPT (Comissão Pastoral da Terra), fazendo de        Goiânia um “ponto de convergência de movimentos transformadores”, através da realização de             cursos e assembleias nacionais do CIMI (Conselho Indigenista Missionário). Assim, dom Fernando organizou a Arquidiocese de Goiânia, “dotando-a de estruturas físicas e administrativas para seu funcionamento”.

No campo eclesial, dom Fernando marcou sua presença como um dos principais artífices da         criação da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (1952), na qual, por vários mandatos, dirigiu               alguns departamentos, sobretudo dos leigos e da Ação Católica. Participante ativo do ‘Concílio                      Vaticano II’ (1962 a 1965), presidiu a Comissão que elaborou o documento sobre os meios de comunicações sociais, durante o ‘Concílio de Medellín’ (1968), em cuja Conferência atuou como      Delegado e de lá trouxe ‘o vigor das pequenas comunidades cristãs’, que depois se tornaram as Comunidades Eclesiais de Bases.

Quando da realização da Conferência de Puebla, embora tenha sido escolhido para representar            o Brasil, não pode participar daquele Concílio, por problemas de saúde. Em sua dedicação integral e         única à Igreja de Cristo, dom  Fernando acolheu  em sua  Arquidiocese  inúmeros   missionários e

missionária de todos os lugares do Brasil e do exterior, pessoas que deram significativa contribuição                      na construção da Igreja de Goiânia.

Espírito incansável auxiliou na fundação da ‘Comissão de Justiça e Paz’ – no Brasil e em Goiânia            – organização que tem por missão, a promoção e a defesa dos direitos humanos, especialmente, dos        mais fracos. Em síntese, pode-se dizer que “a dimensão de sua vida se estende para a Igreja         Universal”, porque ele soube, de maneira consciente, transformar a ação evangelizadora, colocando-           a em defesa dos mais humildes.

Pastor firme e sereno, áspero e denso, culto e aberto, dom Fernando entrou para a História do Clero Brasileiro como um “poeta combatente dos bons combates pela fé, pela verdade, e pela justiça   social”. E, como sacerdote e cidadão, teve uma vida “marcada por duas grandes preocupações: a evangelização e a justiça social”.

Conciliador ensinava que “o maior pecado é o pecado contra a unidade” e que “a causa da Igreja é a causa de Cristo e que a causa de Cristo é o Homem”. Assim, na observação da Irmã Laura               Chaer, nasceu ‘o dom Fernando profeta’, um Arcebispo que defendia “o homem, sua dignidade, sua     liberdade   de, sua responsabilidade e cidadania”, e, ensinava que todo homem tem “o direito de       crescer,   de ter sua palavra na marcha da História, de intervir, livre e responsavelmente, no curso do processo  social”.

Espírito polêmico e irrequieto, dom Fernando era um homem transparente, autêntico, capaz de gestos simples e solidários com qualquer pessoa. Adepto da ‘Teologia da Libertação’ e cultor da       verdade, em sua ação, fez dessa primícia, seu lema e frequentemente afirmava que era preciso       “construir o Reino de Deus Sem Medo e Sem Violência”.

Existem algumas páginas da vida desse ilustre patoense, que foram marcadas por lágrimas e sofrimentos. Na década de sessenta, quando o Brasil viu-se mergulhado no arbitrariíssimo do regime      militar, dom Fernando dialogou com a ditadura, procurando mostrar que através da violência não se consegue o respeito e muito pouco, a governabilidade de um país. Incompreendido, rompeu com o         novo regime e pôs em prática seu lema ‘Sem Violência e Sem Medo’, por entender que ‘patriotismo          não é privilégio de militar’.

Grande defensor dos direitos humanos, durante aqueles tristes anos da história pátria, numa  atitude corajosa, fez de sua residência – localizada no cruzamento da Rua 20 com a 14, no centro de Goiânia – abrigo e asilo para aqueles que fugiam do arbitrarismo e das perseguições políticas. Por          suas atitudes, foi sitiado e pressionado. No entanto, em nada cedeu.

Numa visível demonstração de arbitrariedade e desrespeito a Deus e à Igreja Católica, acusando dom Fernando de subversão, a 15 de setembro de 1968, os militares invadiram a Catedral        Metropolitana, metralhando alguns estudantes e ativistas. Por algum tempo, dom Fernando foi           mantido preso em seu sólio. Entretanto, em momento algum fraquejou, nem mesmo quando teve a       Rádio Difusora censurada e a ‘Revista da Arquidiocese’ impedida de circular (1973-1974).

Corajoso, moldado pela rudeza e aspereza do Nordeste – onde nascera – continuou resistindo e orientando seu rebanho, mostrando-se solidário a todos que lutavam contra as injustiças e violências, praticadas pelo regime militar. Certa vez, relembrando a invasão de sua Catedral, assim reportou-se:        “os acontecimentos de 1968 fizeram história e dela a Igreja participou com seu testemunho”.

Em 29 de dezembro de 1980, numa carta pastoral, destinadas aos bacharéis de Direito da UFG, disse: “unamo-nos, sem violência e sem medo, para vencer o arbítrio, a prepotência e o terrorismo.        Mais do que escravos da lei iníqua, sejamos arautos da Justiça e amantes da verdade” e “sejamos        livres, no pleno e evangélico sentido da Liberdade, e elevaremos o mundo acima de suas iniquidades          e faremos triunfar os ideais de Vida, de Amor e de Paz”.

Em Goiás, dom Fernando Gomes dos Santos foi o criador dos primeiros centros de desenvolvimentos comunitários, “fruto extraordinário do seu trabalho e da sua visão, que penduram           até hoje”. Curioso, é observar que as ações pastorais por ele desenvolvidas em Goiânia, “foram um      reflexo de tendências e aptidões já demonstradas em seus primeiros anos de sacerdote,       destacadamente em Patos, sua terra natal, como pároco. A luta em favor da educação, o amor e a dedicação à sua Igreja, o fervor pela Ação Católica, a defesa dos oprimidos, tudo isso dom Fernando          já tornara concreto em seus dias de vigário de Patos, quando era apenas o padre Fernando”.

Em Goiânia, ele construiu o Asilo ‘São Cotolengo’, a Escola Agroindustrial e o Centro Pastoral (hoje, chamado de Dom Fernando); concluiu as obras da Catedral; criou o ‘Aprendizado Agrícola São   José’, a ‘Escola Doméstica Pio XII (atual Lar Pio XII) e incentivou inúmeras campanhas sociais,            dando maior ênfase à Campanha da Fraternidade. Hoje, mesmo após dezenove anos de sua morte,       toda a sua obra social, cultural e missionária, em Goiás, continua em pleno desenvolvimento.

Por sua ação consciente, foi responsável pela idealização da primeira experiência de reforma       agrária no Estado de Goiás, loteando os 320 alqueires da Fazenda Conceição, patrimônio da    Arquidiocese, em Corumbá, entre 52 famílias de trabalhadores rurais, prestando-lhes assistência        técnica e humana.

Para concretizar seus objetivos, dom Fernando contou com o apoio do Banco do Brasil SA e da Misereor, uma organização alemã, interessada na promoção social da América Latina. Naquele assentamento, construiu uma vila rural, dotada com posto de saúde, escola comunitária e centro de assistência social. Essa experiência pioneira mereceu os mais louváveis elogios do ex-presidente          Jânio Quadros, que, na ocasião, afirmou ser aquele modelo, uma solução humanitária, que bem         poderia “resolver o grande problema da terra e do homem do campo”, no Brasil.

De forma responsável, dom Fernando incentivou a ‘reforma urbana’, apoiando “a luta dos         posseiros sem eira e sem beira, sem vez e sem voz nas periferias goianienses e que depois teve,          como homenagem, o seu próprio bairro numa ação coerente da Igreja”, graças à presença           continuada, firme, sincera, humilde e corajosa do intrépido Arcebispo.

Relembrando a trajetória da vida de dom Fernando, o jornal ‘O Popular’, de Goiânia, em sua         edição de 1º de junho de 1995, expressou: “a presença deste nordestino franco e corajoso, em que        pese os desafetos que encontrou pelo caminho, revolucionou o papel da Igreja em Goiás. As            questões sociais se tornaram temas de discussões no âmbito pastoral e nunca mais deixaram de       integrar as preocupações da Arquidiocese de Goiânia”.

Utópico, criticado por alguns e apoiado por muitos, dom Fernando foi um realizador, na            expressão completa da palavra. A certeza da morte, tornou-o um homem preocupado com a vida.       Assim, oito anos antes de falecer já havia redigido seu testamento.

Defensor e procurador do povo, cognado ‘o Pai da Igreja de Goiânia’, dom Fernando foi o         construtor da Arquidiocese daquela capital, cuja história é dividida em duas etapas: antes e depois       desse grande ministro da Igreja. Ali, sua memória é reverenciada e sua presença, é notada em         inúmeras obras e realizações, que partiram de seu espírito de incansável servo do Senhor.

Graças a sua gestão pastoral, a cidade de Goiânia foi colocada “no rol das grandes Dioceses do   Brasil”, dando-lhe dimensão pública, “na vivência da realidade do Brasil”, fato que levou dom Antônio Ribeiro, seu sucessor, a afirmar: “Dom Fernando continua vivo entre nós, na sua obra, mas,             sobretudo na gigantesca ação social, religiosa e política, no bom sentido, da transformação social          deste país, num Brasil para todos os brasileiros”.

Figura impressionante, para o povo de Goiânia, ele não foi apenas o seu primeiro Arcebispo e     um pastor bondoso. Foi também um pai, um educador, um protetor dos pobres, principalmente da              classe camponesa e do operariado. E, por sua continua ação pastoral, tornou-se também um            defensor da vida, que a todos ensinava que “Jesus veio ao mundo para dar a vida e não a morte, a         fome e a destruição”.

Sua Igreja não conhecia o marasmo. De forma consciente, dom Fernando soube inscrever seu        nome na História de Goiânia. Sua ação pastoral ganhou projeção, ultrapassou os limites        arquidiocesanos e projetou-se nacionalmente. Dois anos após tomar posse na Arquidiocese de          Goiânia, criou a Diocese de São Luís dos Montes Belos. E, fez da criação da Arquidiocese de            Brasília, sua bandeira de luta.

Na década de sessenta, devidamente autorizado pela Santa Sé, criou mais cinco dioceses, entre      elas, Ipameri, Anápolis, Itumbiara e Luziânia. Sempre disposto a colaborar, lutou pela criação e      instituição das Dioceses de Rubiataba e Miracema do Tocantins, demonstrando que era um homem       “com uma visão de prospecção do futuro extraordinária”. Assim, por sua reconhecida dedicação à          Igreja, foi nomeado Assistente do Sólio Pontifício, pelo Papa João XXIII, em 1960.

Grão Chanceler da Universidade de Goiás, membro da Comissão Central da CNBB e Secretário         da Regional Centro-Oeste, no dia 1º de junho de 1985, chamado por Deus, dom          Fernando deixou a         vida terrena. Seu corpo, em câmara ardente, foi exposto na Catedral Metropolitana de Goiânia, para visitação pública. Na tarde do dia seguinte, após uma missa de réquiem e dos rituais prescritos pela      Igreja Católica, seu corpo foi inumado no interior daquela catedral.

Patrono da cadeira nº. 10 do Instituto Histórico e Geográfico de Patos, o nome de dom             Fernando, em sua terra natal, é lembrado designando uma Escola Estadual de Ensino Médio e uma          via pública. Algo muito pouco, para reverenciar a memória de alguém que, em vida, foi o mais ilustre          de seus filhos.

No dia 1º de junho de 1995, a Arquidiocese de Goiânia, a ‘Sociedade Goiana de Cultura’ e a ‘Universidade Católica de Goiás’, em magníficas celebrações, comemoram o décimo aniversário de falecimento de dom Fernando Gomes dos Santos. Após conferência proferida pelo Arcebispo de       Goiânia, Dom Antônio Ribeiro de Oliveira, no ‘Centro Pastoral Dom Fernando’, na Vila Pedroso, sob             o título ‘O Papel de Dom Fernando na Igreja de Goiânia e Sociedade de Goiás’, houve uma           celebração eucarística na Catedral Metropolitana, presidida por dom Antônio e concelebrada pelos      bispos dom Benedito Cóscia (Diocese de Jataí), dom Orlando Dotti (Diocese de Vacaria-RS), dom Washington Cruz (Diocese de São Luís de Montes Belos), dom Tarcísio Lopes (Diocese de Ipameri),       além de vários padres, ficando a homilia a cargo de dom Tomás Baldoino, Bispo de Goiás.

Em seguida, ocorreu a inauguração da nova sede da ‘Sociedade Goiana de Cultura’,           oportunidade em que também foi inaugurado um busto em bronze, do ilustre sacerdote patoense, em   frente à referida instituição e ao Hospital das Clínicas, no Setor Universitário, no qual se lê: “Dom     Fernando Gomes dos Santos * 10-04-1910 + 01-06-1985. Unidos a Jesus Cristo, sem violência e            sem medo”.

Ainda durante as festividades daquela noite, foi criado o ‘Instituto Dom Fernando’, destinado a  promover o desenvolvimento social, a preservação do meio ambiente, da imagem do Centro-Oeste e         da Amazônia Brasileira, entidade que teve o jornalista Washington Novaes como seu primeiro        presidente. Em ato continuo, foi instituído o ‘Prêmio Dom Fernando de Direitos Humanos’, que            passou a ser concedido anualmente pela Sociedade Goiana de Cultura a pessoas e entidades que,          “fiel a D             outrina Social da Igreja, fiel a ética e a moral cristã, promover, defender, de maneira nítida e destemida, os Direitos Humanos”.

Encerrando a referida solenidade, dom Antônio Ribeiro de Oliveira assinou o decreto nº. 5,          daquela data, alterando a denominação da Escola Agroindustrial de Goiânia, para ‘Escola Dom      Fernando’, que se constitui também numa justa homenagem ao seu criador.

Pastor, contador de histórias, conhecedor das realidades filosóficas e dos problemas sociais de  seu tempo, dom Fernando Gomes foi um prelado moderno. E, em todos os atos de sua vida,             podemos notar a visível presença dos traços de sua inteligência.

Orador sacro de reconhecido valor, possuía o dom da palavra limpa, do aticismo da linguagem, dominando e encantando a todos com sua eloquência, pois a vernaculidade de sua conversa era            uma sinfonia da linguagem.

Homem inteligente, possuidor de uma vasta cultura clássica e filosófica, era um latinista de  grandes conhecimentos na língua de Cícero. Falando ou escrevendo, via-se nele a versatilidade dos clássicos. Sua bibliografia é extensa e valiosa. Conhecidíssimo é seu livro ‘Sem Violência e Sem         Medo’, onde expõe grande parte de seu pensamento filosófico.

Poeta, nas horas vagas, era um cultor do soneto e alguns de seus poemas “são verdadeiras pequenas joias de sabedoria e bom humor”. Em sua poesia, dom Fernando retrata a vida, o mundo e           o homem. Num de seus poemas, expõe: “O Homem, em mistério vive imerso. / O Que há dentro              dele, ninguém sabe. / Em qualquer um de nós, cabe o universo. / Entretanto, em si mesmo ninguém     cabe”.

Trabalhador incansável, sua vida foi ‘cheia de frutos e louros’ e por onde passou, semeou a bondade, a harmonia e a paz. Lutar era o seu lema. Trabalhar era a sua divisa. Fazer o bem era o            seu credo. Nenhum patoense merece de seus conterrâneos os aplausos e as orações, do que dom Fernando Gomes dos Santos, que em vida, “foi uma figura inconfundível, que viverá na memória e             no coração de Patos”.

Sábio, em seu grande e nobre coração, habitava ‘uma bondade santa’. Havia nele, os mais completos exemplos de fé cristã, manifestados de forma ardente e robusta, que o dignificava como    ministro de Deus. Por ele, a cidade de Patos chorou duas vezes. A primeira, quando o perdeu como    vigário, mesmo sentindo-se feliz por sua elevação ao episcopado. E, a segunda, quando foi abalada        pela infausta notícia de sua morte.

Em vida, ele foi a integridade em pessoa, que habitava o corpo solene de um patriarca            nordestino. Possuidor de um “coração imenso de bom pastor”, de maneira corajosa, fez de sua voz,        uma das mais importantes arma em defesa dos oprimidos. Verdadeiro ‘Guerreiro da Paz’, em todos            os sentidos, é unânime o pensamento do real significado que teve dom Fernando Gomes dos Santos         na Igreja da Paraíba, de Alagoas, de Sergipe e Goiás, do Brasil e do mundo.